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BARTOLOMEU, UM “VERDADEIRO ISRAELITA

quarta-feira, 8 de outubro de 2014



"Perguntou-lhe Natanael: Pode haver coisa boa vinda de Nazaré? Disse-lhe Filipe: Vem e vê."
João 1.46

Desse discípulo, cujo nome significa literalmente Filho de Talmai, muito pouco se sabe, do ponto de vista bíblico.
Natural de Cana da Galiléia (Jo 21.2), Bartolomeu é citado por alguns escritores cristãos primitivos como sendo descendente da casa de Naftali, embora outros autores, numa alusão ao historiador Jerônimo, sugiram um paralelo entre seu nome e os descendentes de Talmai, rei de Gesur (2 Sm 3.3), que fora pai de Maaca, mãe de Absalão.
Outra tradição, não menos curiosa, conecta as origens do apóstolo à casa real egípcia dos Ptolomeu. Nenhuma das três hipóteses, infelizmente, vai muito além da simples conjectura.
Elias de Damasco, escritor cristão do século IX, foi o primeiro autor de que se tem notícia a identificar Bartolomeu com Natanael, personagem leva­do a Cristo por Filipe, como vemos em Jo 1.45,46. Sobre essa questão, o saudoso escritor britânico John D. Jones em seu livro The Apostles of Jesus (p-75), esclarece:

"Nada havia de incomum no fato de um apóstolo possuir dois nomes. Simão era também chamado Pedro; Levi era conhecido na Igreja como Mateus e um outro dentre os doze se regozijava em ser conhecido por três nomes: Lebeu, Tadeu e Judas! Não há, portanto, a priori, qualquer improbabilidade quanto à sugestão de que o sexto apóstolo, de igual modo, possuísse dois nomes, especialmente quando lembramos que Bartolomeu (Bar-Tohnai), assim como Bar-Jonas, tratava-se apenas de um nome patronímico ou, ainda, de um sobrenome."

Vejamos se há, de fato, alguma outra razão bíblica para a associarmos o quase desconhecido Natanael com o discípulo de nome Bartolomeu. Natanael é um nome que aparece mencionado exclusivamente no Evangelho de João e, assim mesmo, em apenas duas ocasiões: no primeiro capítulo (Jo 1.45-51) - onde temos sua vocação - e, timidamente, no último (Jo 21.2). Ora, se todos os vocacionados no capítulo inicial desse evangelho (André, João, Pedro e Filipe) se torna­ram, mais adiante, discípulos de Jesus, temos na chamada de Natanael uma forçosa sugestão de que ele também veio a se tornar um dos doze. Se assim não fosse, seria deveras difícil compreen­der porque João - no início de seu evangelho -dedicou tanta atenção a alguém sem íntima liga­ção com a vida de Jesus e de Seus seguidores.
Se o primeiro capítulo de João torna provável o discipulado de Natanael, o último faz disto um fato acima de qualquer dúvida. Ali, acompanhan­do Pedro, João, Tiago e Tomé em seu antigo ofício, Natanael é citado pelo evangelista como um dos discípulos (Jo 21.2), ao lado dos quais testemunhara as gloriosas aparições do Cristo ressurreto na Galiléia.
Contudo, se Natanael foi de fato um dos doze, com qual deles seria mais razoável identificá-lo? Não haveria nada que vinculasse esse nome com qualquer um dos apóstolos, não fosse por um pequeno detalhe que veremos a seguir. Uma rápida leitura em três das quatro citações que con­têm a listados apóstolos (Mt 10.2-4; Mc 3.16- 19; Lc 6.14-16) é sufici­ente para percebermos que o nome de Bartolomeu aparece associado ao de Filipe; esse fato, endossado pelas narrativas posteriores da história ecle­siástica, nos faz suspeitar de uma relação próxima entre ambos, preceden­te à chamada de Bartolomeu ao discipulado cristão. Se interpretarmos esse relacionamento à luz de Jo 1.45-46, onde vemos Filipe buscando testemunhar de Cristo para seu amigo Natanael, poderemos ter, então, nas figuras de Bartolomeu e Natanael a mesma pessoa. Embora insufici­entes, são essas as únicas sustentações bíblicas que justificam a alegada fusão dos personagens citados. A despeito de sua fragilidade, essa hipóte­se norteará, a seguir, o perfil do apóstolo que enfocamos nesse capítulo. Desta forma, associaremos, daqui em diante, o nome de Bartolomeu ao de Natanael.

A vocação de Bartolomeu
Nos dias apostólicos, dizia-se em Israel que alguém que costumava des­cansar sob a sombra de uma figueira era, certamente, uma pessoa de posses. Embora tenha sido exatamente essa a situação em que Bartolomeu se encon­trava, momentos antes de ser abordado por Filipe (Jo 1.48), sugerir algo semelhante acerca do apóstolo em questão tendo por base apenas essa passa­gem seria, no mínimo, uma especulação grosseira. E muito mais provável, entretanto, que Bartolomeu — assim como a maior parte de seus condiscípulos — tenha desfrutado de uma vida típica dos galileus habitantes das regiões próximas ao Lago de Genesaré, marcada pela simplicidade e pelo trabalho árduo.
Como a maior parte dos discípulos, Bartolomeu parece ter sido um ho­mem profundamente sintonizado com as expectativas messiânicas de sua época. O notável testemunho de Jesus a seu respeito (Jo 1.47) deixa transparecer o perfil de alguém que serviu-se da Lei e dos profetas não apenas para orientar suas esperanças na gloriosa redenção de Israel, mas também para desenvolver em seu íntimo uma espiritualidade frutífera, de­terminada pelas diretrizes da sabedoria divina, sobre a qual comenta o após­tolo Tiago (Tg3.17).

"A sabedoria, porém, lá do alto, é primeiramente pura; depois pacífica, indulgente, tratável, plena de misericórdia e de bons frutos, imparcial, sem fingimento."

A irônica resposta dada a Filipe (Jo 1.46), consoante ao fato de o Messi­as ser proveniente de Nazaré, não deve ser interpretada como uma atitude discriminatória de Bartolomeu contra essa pequena cidade da Galiléia, em cujas proximidades ele próprio nascera. Aqui, o mais provável é que o futu­ro apóstolo estivesse externando seu ceticismo diante da possibilidade de alguém da magnitude do Messias — tal como era aguardado em Israel — ser procedente de um lugar tão irrelevante e sem nenhuma representatividade nacional. Sobre esse detalhe, comenta John D. Jones (op. cit., p. 80).

"Embora grande estudante das Escrituras, Natanael as enxergava, eu diria, através das 'lentes' rabínicas. Ele aguardava o Messias, porém aquele por quem esperava certamente não era o Messias descrito como Servo Sofre­dor em Isaías 53, um homem de dores e que sabia o que era padecer; Aquele para quem Natanael dirigia suas expectativas era apregoado pelos 'rabbis' como um grande príncipe, vestido de púrpura e circundado por toda pompa e esplendor da realeza."

Se há algo que se pode afirmar sobre Bartolomeu, antes de sua vocação apostólica, é que se tratava de um homem veraz em seu coração. No caso do apóstolo, essa virtuosidade pressupõe uma intensa devoção e integridade religiosa. Isso é o que e pode concluir a partir da observação feita por Aquele que o separou para o discipulado (Jo 1.47):

"Jesus, vendo Natanael (Bartolomeu) aproximar-se dele, disse a seu res­peito: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo!"

E provável que Jesus, ao Se valer da expressão "verdadeiro israelita", estivesse tentando avultar não o zelo de Bartolomeu quanto à observância exterior da Lei, mas sua fidelidade para com os mandamentos divinos no mais íntimo da alma. Essa expressão nos remete à Epístola aos Romanos, onde o ex-fariseu Paulo complementa (Rm 2.28-29).

"Porque não é judeu quem o é apenas exteriormente, nem é circuncisão a que é somente na carne.
Porém judeu é aquele que o é interiormente, e circuncisão a que é de coração, no espírito, não segundo a letra, e cujo louvor não procede dos homens, mas de Deus."

O louvor do qual Bartolomeu foi alvo complementa-se com a significa­tiva observação em quem não há dolo. No ensinamento contido em Mt 7.21-23, Jesus refere-Se ao dolo como um dos males originários do coração, responsáveis pela contaminação do ser humano. O termo grego dolos corresponde em significado ao seu descendente português, isto é., fraude, astúcia, engano, maquinação. Na referência a índole de Bartolomeu, Jesus emprega seu equivalente negativo, a dolos. Essa expressão, ocorre também em 1 Pe 2.22, onde descreve a pureza e a perfeição de caráter do Senhor.
Inspirado nas palavras de apreço do Mestre em relação a Seu futuro discípulo - mas certamente cruzando as fronteiras da conjectura -John D. Jones concebeu assim o perfil de Bartolomeu (op. cit., p.77, 82):

"A primeira coisa que diria acerca de Natanael é que era um homem entre­gue ao estudo, à meditação e à oração. Julgando pelo fato de seu nome ocorrer na lista daqueles que decidiram retornar, ao lado de Pedro, à pescaria, deduzo que Natanael, assim como seus irmãos e apóstolos, era pesca­dor. Contudo, nunca se permitiu absorver por seus negócios. Praticava a pesca apenas como meio de subsistência, porém seu coração estava volta­do para as coisas lá do alto. Cada momento que podia arrebatar de seus afazeres diários, ele os devotava à meditação e à oração silenciosa.
Havia, naqueles tempos, um círculo de israelitas cujas almas estavam vol­tadas à oração. Homens como Simeão, que ansiava pela consolação de Israel, e mulheres como Ana, que jamais deixava o templo, onde adorava com súplicas e jejuns, dia e noite. Natanael era um dos que compunham esse seleto e consagrado círculo.
No jardim que possuía, junto a sua humilde casa, havia uma figueira sob a sombra de cujas folhas Natanael passava horas a fio, em clamor a Deus ou absorvido em estudos sobre os legados de Moisés e dos profetas.
(...)
Ele era qual o patriarca Jacó, um príncipe diante de Deus, no poder de suas orações. Contudo, ao contrário daquele, não tinha em sua natureza qualquer traço de engano ou sagacidade.
Newman, no segundo volume de seus 'Sermões', nos mostra como o 'homem sem dolo' é descrito no décimo quinto salmo: 'Então Davi per­gunta: Senhor, quem habitará no teu tabernáculo? Quem há de morar no teu santo monte? O que vive em integridade e pratica a justiça, e, de coração, fala a verdade; o que não difama com sua língua, não faz mal ao próximo, nem lança injúria contra o seu vizinho; o que jura com dano próprio, e não se retrata.' Este é o perfil de Natanael."

Conquanto fantasiosas em alguns aspectos, as diversas descrições sobre o ministério pós-bíblico de Bartolomeu, sobre o qual falaremos adiante, suge­rem que o jovem discípulo não poupou esforços para proclamar o evangelho através de regiões por vezes hostis, freqüentemente longínquas e quase sem­pre estranhas a sua terra e sua cultura. Num desses lugares, Bartolomeu, como muitos dos condiscípulos, parece ter selado com seu próprio sangue o teste­munho de Jesus.
Os vestígios deixados por suas jornadas, ainda que raros, podem ser mais uma evidência de que as missões apostólicas atingiram, antes do final do primeiro século, a distante índia, país que, pela dimensão de suas trevas espirituais, constitui ainda hoje um dos maiores desafios missionários transculturais.

Bartolomeu na Ásia Menor
A região da Ásia Menor (atual Turquia) é notoriamente apontada pela tradição como um dos palcos de maior atuação do apóstolo Bartolomeu em suas jornadas missionárias.
A obra apócrifa Atos de Filipe, por exemplo, registra a incursão de Bartolomeu nessa região onde, ao lado de Filipe (provavelmente o apósto­lo), ministrou a Palavra em Hierápolis. Ali, após curar a esposa do procônsul e conseguir sua conversão, despertou a fúria do magistrado romano que os teria condenado à morte por crucificação. Filipe parece ter realmente sofrido o martírio em tal ocasião, como veremos mais adiante, mas Bartolomeu, por alguma razão desconhecida, obteve a suspensão da pena quando já se encontrava no madeiro.
Dorman Newman, historiador cristão do século XVII, comenta em sua obra The Lifes and Deaths of the Holy Apostles, esse momento extraordinário de Bartolomeu na Ásia Menor.

"Em Hierápolis, na Frigia, o encontramos em companhia do apóstolo Fili­pe (como já fora antes observado em sua vida), diante de cujo martírio por crucificação, Bartolomeu acabou preso e também condenado à mesma pena capital. Entretanto, em razão de algo que desconhecemos, os magis­trados interromperam seu suplício e o despediram. Dali, Bartolomeu diri­giu-se à Licaônia, onde João Crisóstomo afirma ter o apóstolo iniciado muitos na fé cristã."

A despeito dessa narrativa tradicional, devemos reconhecer que seria quase um milagre, em tais circunstâncias, a sobrevida de um condenado ao suplício da cruz. Fixado pelos pulsos e pelos pés ao madeiro com os terríveis cravi trabales — pregos enferrujados de quase vinte centímetros de compri­mento - o crucificado tinha como destino inevitável o tétano. É bem ver­dade que, embora essa tenha sido a maneira mais usual de se perpetrar a crucificação, houve ocasiões em que se objetivou prolongar ainda mais o sofrimento dos crucificados. Nesse caso, um dos expedientes utilizados era a fixação dos sentenciados à cruz com cordas, ao invés de cravos. Embora, nesse caso, a dor fosse incomparavelmente inferior, o tempo de agonia dos condenados costumava superar razoavelmente o período de dois a nove dias estimados para a expiração pelo método mais violento. Se aplicarmos essa possibilidade à pretensa crucificaçao de Bartolomeu em Hierápolis, devemos atribuir ao milagre não sua sobrevida após a já iniciada execução, mas sim à inusitada reversão da sentença por parte dos romanos.
Após a misteriosa libertação, algumas lendas localizam Bartolomeu na vizinha Licaônia, onde teria anunciado a salvação aos pagãos, bem como ministrado às congregações cristãs já existentes naquela região.
A longa tradição da Igreja ortodoxa sobre o apóstolo Bartolomeu tem alguns pontos em comum com as demais, especialmente no que tange à interrupção de seu martírio ao lado de Filipe. Para ela, ambos apóstolos operaram sinais poderosos e curaram muitos enfermos. Em certa ocasião, Bartolomeu e Filipe teriam destruído pelo poder da oração uma terrível serpente, preservada e cultuada num santuário pagão. Irados, os moradores locais decidiram executar os apóstolos, crucificando-os. Enquanto os santos sucumbiam ante a terrível sentença, um grande terremoto teria sacudido a localidade, fazendo perecer não apenas seus juízes mas também parte da po­pulação que assistia à execução. Cheios de temor diante do ocorrido, aqueles moradores decidiram, então, libertar imediatamente os apóstolos, mas cons­tataram que Filipe já havia falecido.

Bartolomeu rumo ao oriente
Vários escritos tradicionais da Igreja, como o apócrifo Evangelho de Bartolomeu, apresentam o apóstolo como enviado ao Oriente, mais especifica­mente à índia, onde teria deixado uma cópia do Evangelho de Mateus, escrito em hebraico. Acerca dessa possibilidade, comenta o historiador Rufino.

"Panteno, filósofo de formação estóica, segundo tradições alexandrinas (...) era de tão notória erudição, tanto bíblica como secular que, atenden­do às solicitações das autoridades, foi enviado como missionário à índia, por Demétrio, Bispo de Alexandria.
Naquele lugar, descobriu que Bartolomeu, um dos doze Apóstolos, já havia anunciado o Senhor Jesus e difundido o Evangelho de Mateus. Ao retornar a Alexandria, Panteno trouxe consigo esta obra, escrita em caracteres hebraicos."

Os ortodoxos também crêem que Bartolomeu exerceu seu ministério na índia, levando consigo um exemplar do Evangelho Segundo Mateus, a fim de auxiliá-lo em suas ministrações. Entretanto, o grande obstáculo na in­vestigação dessa possível jornada reside no próprio significado do termo índia, deveras abrangente naquela época. Os escritores de língua grega e latina se valiam, com freqüência, do termo para se referirem a lugares di­versos como a Arábia, Etiópia, Líbia, Partia, Pérsia e Média. No caso espe­cífico da viagem missionária de Panteno, alguns escritores acham mais provável que o nome "índia" se refira à Etiópia ou, ainda, à Arábia e não ao país que conhecemos hoje por esse nome. Se estiverem certos, devemos - em função do relato supracitado - incluir esses dois países no rol das possibilidades missionárias de Bartolomeu.
Na tentativa de lançar alguma luz sobre a possível missão de Bartolomeu à índia, o Dr. Edgard Goodspeed comenta em seu livro The Twelve (p. 97,98).

"Ainda que tenhamos em mente que o termo 'índia' era empregado de uma forma razoavelmente ampla naqueles tempos, a afirmação de que Bartolomeu lá esteve como missionário, achando um 'Evangelho de Mateus em Hebraico', faz certo sentido. Eusébio declara, em sua História Eclesi­ástica (v.10.12) que, ao tempo da ascensão do imperador Cômodo em 180 A.D., Panteno, mestre e expoente da Igreja de Alexandria, foi envia­do como missionário à longínqua índia, onde Bartolomeu já havia pregado e deixado um certo Evangelho de Mateus em língua hebraica (...)."

Chamando índia a uma região que abrangia desde a Etiópia até a Média, o texto apócrifo O Martírio do Santo e Glorioso Apóstolo Bartolomeu, acres­centa alguns detalhes que, embora aparentemente imaginários em alguns momentos, podem constituir a forma exagerada com que antigos cristãos perpetuaram a possível missão do apóstolo na região.

"Para a índia partiu São Bartolomeu, o apóstolo de Cristo, alojando-se no templo de Astarote e ali vivendo entre os pobres e peregrinos. Havia, pois, nesse templo, um ídolo de nome Astarote, que supostamente cura­va os enfermos do povo. Mas, na verdade, os enfermava ainda mais. O povo jazia na total ignorância do Deus verdadeiro. Na busca do conheci­mento, sem contudo ter a quem recorrer, todos se refugiavam no falso deus o qual lhes trazia problemas, enfermidades, danos, violência e muita aflição. Quando a ele sacrificavam, o demônio, retirando-se dos enfer­mos, parecia curá-los. Vendo estas coisas a população, engodada, conti­nuava a crer nele."

A lenda continua, afirmando que a simples presença de Bartolomeu naqueles termos acabou suprimindo a atuação demoníaca sobre a popula­ção. Indignados com o silêncio do ídolo ao qual serviam, aqueles homens evocaram um certo demônio de nome Becher, na tentativa de descobrirem a razão da impotência de Astarote.

"O demônio Becher respondeu-lhes dizendo: Desde o dia e a hora em que o verdadeiro Deus, que habita nos céus, enviou seu apóstolo Bartolomeu a essa região, vosso deus Astarote está aprisionado em cadei­as de fogo, não podendo falar ou mesmo respirar."

De tal sorte a presença de Bartolomeu provocou os fiéis de Astarote que estes, após as referências dadas pelo demônio, saíram ao encalço do apósto­lo por dois dias inteiros, procurando-o entre os pobres e peregrinos da cida­de, sem contudo encontrá-lo.
Mesmo perseguido pelos adoradores de Astarote, conta a lenda que Bartolomeu prosseguiu sua missão naquele lugar, curando os enfermos e libertando os endemoninhados. Essas operações chegaram aos ouvidos de Polímio, o soberano local, que, afligido pela situação de sua filha, ordenou a imediata busca pelo apóstolo. Ao ser trazido diante do rei, Bartolomeu co­moveu-se com as súplicas do soberano para que libertasse sua filha da opres­são maligna que a mantinha acorrentada por longos anos. Orando poderosamente, Bartolomeu trouxe completa libertação para a jovem, mui­to embora os servos do rei, tomados de pavor, não ousassem aproximar-se da ex-possessa para soltá-la. O apóstolo, então, ordenou-lhes.

"Eis que mantenho preso o inimigo dessa alma; estais vós ainda amedron­tados com essa pequena? Ide, soltai-a e, após dardes a ela de comer, deixai-a descansar."

Profundamente agradecido pelo que lhe fizera Bartolomeu, Polímio car­rega alguns de seus camelos com ouro, prata e pedras preciosas e, a seguir, ordena que seus servos encontrem e presenteiem o apóstolo com aquela inestimável fortuna. Entretanto, na manhã seguinte, enquanto ainda la­mentava não poder encontrar o santo de Deus e gratificá-lo com sua rique­za, o rei é surpreendido em sua câmara pela presença do apóstolo.

"Por que te esforçaste em me buscar ontem por todo o dia com ouro, prata, pedras preciosas, pérolas e vestimentas? Pelo que, anseiam por essas coisas aqueles que buscam o que é da terra; mas eis que eu nada busco de terreno ou carnal."

Recusando a oferta real, Bartolomeu pede a atenção do soberano por alguns instantes, a fim de revelar-lhe seu verdadeiro tesouro. Tendo lhe exposto a obra redentora da cruz, o apóstolo dirigiu-lhe o convite para que recebesse Jesus em seu coração.

"Pelo que, se desejas ser batizado e anelas pela iluminação, far-te-ei contemplá-Lo e poderás, então, compreender de quão grandes males foste redimido."

Relutante em seu coração quanto àquela novidade, o rei desafia Bartolomeu a estar presente, na manhã seguinte, no templo de Astarote, onde o soberano se juntaria aos demais nas costumeiras oferendas ao ídolo.
Conta a lenda que, ao aceitar o convite e comparecer ao santuário pagão, Bartolomeu impede, pelo poder de Deus, a manifestação dos demônios e os desmascara diante de grande multidão de fiéis. Fustigada pela santa interces-são do apóstolo, uma criatura infernal teria clamado:

"Cessai de ofertar-me, ó vós, miseráveis, para que não sofrais ainda mais por minha causa, porquanto estou aprisionado em cadeias de chamas, e mantido em sujeição pelo anjo do Senhor Jesus Cristo, o Filho de Deus, aquele a quem os judeus crucificaram,"

Desejoso de que todos os presentes fossem definitivamente esclarecidos, Bartolomeu conjura o demônio a que fale a verdade acerca do ídolo venera­do por todos naquele lugar.

"Confessa, ó demônio imundo, quem é o que fere todos estes que aqui jazem pesadamente enfermos! O demônio então respondeu: O diabo, nosso guia, que está aprisionado; ele nos manda para que venhamos con­tra os homens e, primeiramente ferindo seus corpos, tomemos de assalto suas almas quando sacrificam a nós. Assim, ao crerem em nós e nos trazerem ofertas, temos poder sobre eles."

Tendo apresentado a verdade à multidão, Bartolomeu, com grande au­toridade, conclama os presentes a crerem no nome de Jesus e a serem batizados nessa fé. Narra a lenda que, por toda a região, se fizeram sentir os efeitos da mensagem e do testemunho do apóstolo naquele lugar:

"Eis que o rei, a rainha, seus dois filhos e toda sua gente, bem como toda a multidão da cidade e das cidades e terras vizinhas e das demais regiões sobre as quais reinavam, creram, foram salvos e batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. O rei, tendo deixado sua coroa, seguiu os passos de Bartolomeu, o apóstolo de Cristo."

Bartolomeu, o Iluminador da Armênia
Conquanto careça do respaldo de escritores primitivos, a crença de que Bartolomeu figura entre os fundadores da Igreja armênia tornou-se influ­ente com o passar dos séculos.
Apoiados em diversas lendas — algumas das quais atribuídas a Jerônimo — autores como William Barclay sugerem que após o período de ministração na Ásia Menor e na região imprecisa denominada índia, Bartolomeu teria seguido em viagem às terras da Armênia, onde aliou-se ao apóstolo Judas Tadeu em meados de 60 A.D. Ali, no decorrer de um ministério de mais de dezesseis anos e em meio a uma abominável idolatria, Bartolomeu operou a cura miraculosa da filha de um certo rei, expondo a inoperância do poste-ídolo adorado pelo soberano e seus súditos. Conta ainda a tradição que, durante a ministração do apóstolo, um anjo teria expulsado o demônio flamejante que habitava o interior do ídolo, diante dos olhos atônitos da população. O rei e muitos de seus súditos foram, conseqüentemente, batizados, suscitando a ira do irmão do soberano, Astiages, e de toda a classe sacerdotal paga. Após definirem como o matariam, Astiages e aqueles líderes religiosos arrebataram Bartolomeu e, escalpelando-o vivo, o crucifica­ram de cabeça para baixo.
Lendas semelhantes, conservadas pelos ortodoxos, afirmam que Bartolomeu não pode livrar-se da ira de um certo rei armênio, nem mesmo após ter curado a loucura de sua irmã. Enfurecido com a presença do após­tolo, o rei teria ordenado sua crucificação e sua posterior decapitação.
Como veremos adiante, as tradições mais fortes apontam a cidade de Albana como o cenário do martírio de Bartolomeu.
Mesmo que as narrativas tradicionais tenham, com o passar dos anos, romanceado ou acrescentado fábulas ao ministério do jovem discípulo, o fato é que tanto Bartolomeu como Judas Tadeu são considerados popular-mente os fundadores da Igreja armênia. Tal tradição, por ser milenar, mere­ce cuidadosa atenção. O Patriarcado Armênio de Jerusalém, num tratado sobre o assunto, resume.

"O indestrutível e duradouro amor dos armênios e sua devoção pela Terra Santa têm seu início no primeiro século da era Cristã, quando o cristianis­mo foi trazido diretamente deste lugar pelos apóstolos São Tadeu e São Bartolomeu. A Igreja que fundaram tornou-se responsável pela conversão de grande parte da população ao longo do segundo e terceiro séculos. No começo do quarto século, em 301 A.D., através dos esforços de São Cregório, o lluminador, o rei armênio Tiridates, o Grande, e todos os membros da realeza converteram-se e foram batizados."

Sobre o ministério apostólico de Bartolomeu na Armênia, Aziz Atiya afirma, em seu livro A History of Eastern Christianity (p. 316).

"Os primeiros lluminadores da Armênia foram São Tadeu e São Bartolomeu, cujos santuários ainda permanecem de pé em Artaz (Macoo) e Alpac (Bashlake), no sudeste da Armênia, sendo há muito tempo venerados pelos armênios.
Uma tradição popular entre eles atribui a primeira evangelização da Armênia ao apóstolo Judas Tadeu que, segundo sua cronologia, lá permaneceu entre os anos 43 e 66 A.D., sendo, a partir de 60 A.D., acompanhado por Bartolomeu, cujo suplício deu-se em 68 A.D. na localidade de Albanus (Derbent)"

Atualmente, a antiga cidade de Albanópolis (também chamada Albana ou Albanus), apontada pela tradição como local do suplício de Bartolomeu, recebe o nome de Derbent. Localizada ao sul da Federação Russa, Derbent está situada próxima à fronteira com o Azerbaijão, na costa oeste do Mar Cáspio. No passado, devido a sua posição estratégica, a região foi um corre­dor geográfico por onde passaram, em direção às civilizações ocidentais, ca­valeiros bárbaros procedentes geralmente das estepes asiáticas.
A tradição apostólica, embora passível de significativas distorções, pare­ce não ter se equivocado ao afirmar que o evangelho atingiu a Armênia no princípio da Era Cristã. Em fins do terceiro século, Gregório, o Iluminador — outra figura preponderante na evangelização da Armênia — deve ter en­contrado ali algum resquício do trabalho realizado por Bartolomeu e Judas Tadeu, tal a facilidade com que difundiu a fé cristã naquele país. Sua mis­são, com a qual logrou a conversão do rei Tiridates, abriu novas portas para a cristianização do país, de sorte que a Armênia tornou-se, em meados do quarto século, a primeira nação na História a proclamar-se oficialmente cristã.
O Patriarcado Armênio de Jerusalém se orgulha em citar o caso de Macário, Bispo de Jerusalém (séc. IV), que teria mantido uma estreita co­munhão com aquela comunidade oriental. Entre 325 e 335 A.D., numa de suas cartas ao bispo armênio Vertanes, Macário, além de tratar de vários assuntos de interesse eclesiástico, saúda o ministério pastoral assim como todos os crentes daquele lugar, sugerindo a existência de uma Igreja muito bem disseminada entre a população local. Aliás, no princípio do século seguinte, cem anos após a missão de Gregório, a população armênia já so­mava mais de dois milhões de cristãos, transformando o país num dos prin­cipais centros do cristianismo no mundo de então!
Assim como seu ministério, as características físicas de Bartolomeu tam­bém foram alvo de especulações tradicionais. A curiosa descrição do após­tolo encontrada no livro A História Apostólica de Abdias apresenta alguns detalhes fantasiosos; entretanto, pode conter traços daquilo que realmente constituiu o retrato do jovem missionário:

"[Bartolomeu] Tinha os cabelos encaracolados e negros, que cobriam as orelhas. Sua pele era clara, seus olhos grandes e seu nariz reto e compri­do. A barba era longa e grisalha e sua estatura mediana.
Vestia roupas brancas e cingia-se com uma cinta púrpura, tendo sobre si um manto branco com quatro pedras preciosas de cor púrpura em seus cantos. Durante vinte e seis anos as vestiu sem que sequer ficassem ve­lhas. Assim, também, suas alparcas por vinte e seis anos perduraram.
Orava cem vezes ao dia e cem vezes à noite. Sua voz era como de uma trombeta e anjos velavam sobre ele. Era sempre jovial e conhecia todas as línguas."

Os restos mortais
Se os relatos tradicionais não se mostraram precisos quanto ao ministé­rio de Bartolomeu, pode-se afirmar o mesmo acerca do verdadeiro local de seu descanso, também alvo de um sem número de narrativas divergentes, das quais poucas transmitem alguma credibilidade.
Otto Hophan, em seu livro The Apostles (p. 167), apoia as tradições armênias acerca do paradeiro dos restos de Bartolomeu.

"A tradição armênia sustenta que o corpo do apóstolo foi sepultado em Albanópolis (ou Urbanópolis), cidade da Armênia onde é tido como martirizado. Dali, seus restos mortais foram levados a Nefergerd-Mijafardin e, posteriormente, a Duras, na Mesopotâmia."

A condução dos restos do apóstolo para a Mesopotâmia surge como um ponto comum entre muitas das lendas sobre as relíquias de Bartolomeu. Não obstante, a autora católico-romana Mary Sharp, em seu A Traveller's Guide to Saints in Europe (p. 29), mostra que a Mesopotâmia não deve ter sido o paradeiro final das relíquias de Bartolomeu, conforme narram alguns textos antigos:

"Um relato nos diz que, após o imperador Anastácio construir a cidade de Duras, na Mesopotâmia em 508 A.D., para lá foram levados os restos mortais de Bartolomeu. Entretanto São Cregório de Tours afirma que, an­tes do fim do sexto século, o que restou do apóstolo teria sido levado às Ilhas Lipari, próximas da Sicília. Já Anastácio, o Bibliotecário, conta que ano 809 A.D. os restos de Bartolomeu foram levados até Benevento e de lá para Roma, em 983 A.D., pelo imperador Otto III. Atualmente, repou­sam na Igreja de São Bartolomeu-Sobre-o-Tibre num santuário pórfiro so­bre o altar. Um dos braços foi enviado pelo Bispo de Benevento a Eduardo, o Confessor, que o doou à Catedral da Cantuária."

Se os restos de Bartolomeu foram realmente trasladados desde a Mesopotâmia até seu destino final em Roma, como afirmam alguns autores católicos, não o sabemos com certeza. A presença do apóstolo na Armênia parece muito provável, dada a quantidade de tradições distintas que a confir­mam. O posterior transporte de seus restos para a vizinha região da Mesopotâmia também encontra eco em muitos relatos antigos. Porém, quanto ao mais, devemos ter em mente que, ao longo de toda a Idade Mé­dia, a supremacia absoluta da Igreja romana tratou de estimular o surgimento de lendas ligando o paradeiro das relíquias apostólicas à capital do império. Tal tendência, por si mesma, nos obriga a abordar com todo cuidado as tradições que sustentam o envio indiscriminado de restos apostólicos para Roma.
Por outro lado, o cristão de origem ortodoxa, por certo, se identificaria muito mais com o relato de John Julius Norwich, em seu livro Mount Athos (p. 142), Na obra, Norwich descreve sua saga ao Hagion Oros (Monte San­to), como os gregos o chamam, uma montanha de quase dois mil metros, onde muitos de seus vinte mosteiros ortodoxos da ordem de S. Basílio con­servam silenciosamente um raro exemplo da beleza arquitetônica bizantina. Ali, em meio a uma atmosfera que remonta aos dias medievais, o autor afirma ter sido conduzido por um monge aos restos mortais do apóstolo Bartolomeu, assim como aos de Dionísio, o Areopagita, o personagem con­vertido por Paulo em Atenas (At 17.34).
 
 
 
FONTE: Doze homens e uma missão / Aramis C. DeBarros. - Curitiba : Editora Luz e Vida, 1999.
www.assembleianospuritanos.blogspot.com.br

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