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Ana, a profetisa

domingo, 10 de agosto de 2014

Antes de estudarmos o texto de Lucas 2.36-38, permita-me fazer uma breve introdução para facilitar o entendimento do mesmo. Na verdade, praticamente todos os devotos em Israel já esperavam o Messias e procuravam diligentemente por ele no lugar exato em que Jesus nasceu. Ironicamente, pouquíssimos o reconheceram por ele não vir ao encontro de suas expectativas. Eles procuravam um poderoso líder político e militar que se tornaria rei conquistador, porém, ele nasceu numa família camponesa. Esperavam que ele chegasse com muito alarde e ostentação. Ele nasceu numa manjedoura, quase em segredo.
Os únicos em Israel que reconheceram Cristo em seu nascimento eram pessoas humildes e simples. Com exceção dos magos de Mateus 2.1-12, é claro, que eram estrangeiros e gentios, ricos, poderosos e influentes em sua própria cultura, os únicos israelitas que compreenderam ser Jesus o Messias por ocasião do nascimento dele foram Maria e José, os pastores, Simeão e Ana. Todos esses eram basicamente desconhecidos. Todos eles o reconheceram porque os anjos lhes disseram, ou por outro modo de revelação especial. O evangelista Lucas conta a história de cada um deles em sucessão, como se chamasse várias testemunhas, uma de cada vez, para ratificarem que o Messias chegou!
A última testemunha que Lucas chama é Ana.[1]Tudo o que a Bíblia diz a respeito dela está em apenas três versículos (Lc 2.36-38). Ela não é mais mencionada em nenhum outro lugar das Escrituras. No entanto, o que Lucas relata acerca de Ana é tremendo e impactante.
Ana era profetisa. Lucas começa dizendo: “Havia uma profetisa, chamada Ana...”. Na Bíblia, apenas cinco mulheres são apresentadas por nome como profetisas. A primeira delas é Miriã, irmã de Moisés e Arão (Êx 15.20); a segunda é Débora, que julgava a Israel debaixo de uma palmeira (Jz 4.4,5); a terceira, Hulda, contemporânea do rei Josias (2Rs 22.14; cf. 2Cr 34.22); a quarta foi Noadia, classificada entre os falsos profetas no tempo de Neemias (Ne 6.14).[2]A última é Ana, a única profetisa chamada pelo nome no Novo Testamento.
O fato de Lucas praticamente iniciar seu Evangelho falando de uma profetisa é extremamente significativo. Morris faz uma observação interessante: “Não tinha havido profeta algum durante séculos, de modo que é digno de nota que Deus levantara esta profetisa”.[3]Mas o que é um profeta ou profetisa, biblicamente falando? Não encontrei resposta melhor que a de William Hendriksen: “Um verdadeiro profeta ou profetisa é alguém que, havendo recebido revelações do propósito e vontade de Deus, declara aos demais o que assim recebeu”.[4]
Ana era da tribo de Aser. “... filha de Fanuel, da tribo de Aser...”. Seu pai é citado para comprovação do registro genealógico e sua ascendência tribal é mencionada por ser incomum.  Aser era o oitavo filho de Jacó, filho de Zilpa, a serva de Lia e concubina de Jacó (Gn 30.12,13). A tribo descendente de Aser pertencia ao reino das dez tribos apóstatas e idólatras do norte de Israel. Entretanto, alguns israelitas fiéis de cada uma dessas tribos migraram para o sul, a fim de não serem excluídos do templo; todavia, ao fazê-lo, tiveram que abrir mão das terras de suas famílias e de sua herança.
MacArthur comenta: “O fato de Ana ser descendente de Aser sugere que a sua descendência deve muito à graça de Deus. Seus ancestrais ou migraram para o sul antes da conquista assíria de Israel ou estavam entre os poucos e espalhados exilados que voltaram do cativeiro”.[5]Seja como for, Ana fazia parte do remanescente fiel do reino do norte, e era símbolo vivo da compaixão de Deus para com seu povo.
Ana era uma idosa viúva. “... avançada em dias, que vivera com seu marido sete anos desde que se casara e que era viúva de oitenta e quatro anos”. “avançada em dias” (ARA); “muito idosa” (NVI); “de idade muito avançada” (BJ). O texto grego é ambíguo quanto à idade dela. É que o original favorece tanto a tradução de que Ana era viúva há 84 anos quanto a de que ela estava com 84 anos de idade. As duas interpretações não cabem ao mesmo tempo no texto. Somente uma delas está correta. Qual seria?
A lei judaica mais antiga permitia que uma jovem se casasse a partir dos doze anos de idade. Se considerarmos os 84 anos de Ana como sendo o da sua viuvez, tendo ela se casado aos 12 anos e vivido com o marido 7, então ela estaria com 103 anos! Realmente muito idosa, porém, totalmente possível. Contudo, o mais provável é que o texto esteja dizendo que Ana era uma viúva de 84 anos de idade. Ela foi casada durante sete anos antes de seu marido morrer, não teve filhos, nunca se casou de novo e vivia como viúva há mais de seis décadas.  
A viuvez naquela época era extremamente difícil. Praticamente ela dava a certeza de uma vida de extrema pobreza. É provável que Ana vivesse de caridade ou se sustentasse com o que sobrou da herança da família. Seja o que for, com certeza ela levava uma vida simples, casta e moderada.
Ana era assídua no templo. “Esta não deixava o templo, mas adorava noite e dia em jejuns e orações”. Ana é uma das pessoas mais consagradas que encontramos nas páginas da Bíblia. Segundo MacArthur, “Não nos vem à mente ninguém mais que tivesse jejuado e orado fielmente por mais de sessenta anos”.[6]Ana vai na “contramão” da degradação espiritual que rondava o templo de Jerusalém. Não compactuava da hipocrisia farisaica, da exploração religiosa sacerdotal e da roubalheira dos vendilhões do templo. Ana era comprometida com o seu Deus. Em adoração diária, com jejuns e orações, ansiava ela, assim como Simeão, ver a salvação de Deus, o Messias prometido.
Lucas diz que Ana nunca se apartou do templo, ou seja, ela não perdia um culto! Frequentava regularmente os cultos matinais e vespertinos do templo de Jerusalém.
Ana era uma testemunha fiel. “E, chegando naquela hora, dava graças a Deus e falava a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém”. “E, chegando naquela hora...”. Em quê hora? Justamente na hora que Simeão tomou o menino Jesus em seus braços (Lc 2.28-32) e proferiu a bênção profética de Lucas 2.34,35.  “... dava graças a Deus e falava a respeito do menino a todos...”. Os verbos “dar” e “falar” indicam ação contínua. Isso significa que Ana ao mesmo tempo agradecia a Deus pelo Messias e falava a todos quantos esperavam a redenção de Jerusalém, ou seja, a “consolação de Israel”, sua libertação do pecado por intermédio do Redentor. Essa foi a mensagem de Ana até o fim de sua vida.
O que aconteceu depois com Ana não está escrito. Sem dúvida, ela já estava no céu quando Jesus começou seu ministério público, cerca de trinta anos mais tarde. O dia da apresentação de Cristo no templo foi provavelmente a única vez que ela o viu com os próprios olhos. Mas para ela isso foi o suficiente, visto que não podia mais parar de falar a respeito de Jesus.




[1] Cf. John MacArthur, Doze Mulheres Notáveis. São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 116.
[2] O Talmude judaico (Megillah 14a) reconhece somente sete profetisas no Antigo Testamento.
[3] Leon L. Morris, Lucas: Introdução e Comentário. Série Cultura Bíblica. São Paulo: Vida Nova/Mundo Cristão, 1990, p. 86. Itálico do autor.
[4] William Hendriksen, Comentário do Novo Testamento: Lucas. Vol. 1. São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 239.
[5] MacArthur, p. 120.
[6] Idem, p. 122.


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